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O LUTO DE ELIAS GRO:
 
TimeOut: ****
 
"O Luto de Elias Gro há-de guardar lugar próprio e intransmissível entre as melhores obras da Literatura Portuguesa contemporânea" - João Gobern, Diário de Notícias

"Um retrato íntimo da mortalidade" - Isabel Lucas, Público **** 

"O melhor romance de Tordo" - José Mário Silva, Expresso ****
 
 
O Paraíso Segundo Lars D.:
 
"Tordo não dá respostas. Alimenta cuidadosamente a ambiguidade, o paradoxo, como se fizessem parte de um silêncio cujo mistério não quer desvendar (...) Um sólido trabalho de linguagem" Isabel Lucas, Público. ****
 
"Este é um livro sem acção, o que decerto surpreenderá muitos dos leitores de Tordo (e mais surpreendidos ficarão por, ainda assim, se descobrirem igualmente agarrados da primeira à última página."
"João Tordo volta a oferecer-nos uma poderosa voz narrativa feminina."
"uma escrita mais vibrante, capaz de momentos de grande intensidade expressiva ou de inesperado lirismo."
José Mário Silva, Expresso ****
 
"Recomendo ambos os livros até agora lançados, prometendo um mundo diferente e emocionalmente forte, escrito por um dos rostos da literatura portuguesa", Hélio Carvalho, COMUM
 
"Este é o romance sucessor do muito aclamado “O luto de Elias Gro” – também editado este ano – mas que, ainda assim, poderá ser lido de forma independente, mesmo que o mais provável seja, para os que não fizeram o luto, irem à livraria comprar o seu antecessor depois de terminada a leitura deste pequeno paraíso literário" Pedro Miguel Silva, DEUS ME LIVRO

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Conversations Fictives

por João Tordo, em 10.06.16

Os meus agradecimentos a Ignasi Duarte, ao Instituto Camões e à Fondation Gulbenkian, em Paris - a Conversation Fictive, com o Ignasi, foi dos momentos mais interessantes dos últimos anos.

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Encontros em Paris - Junho de 2016

por João Tordo, em 30.05.16

No dia 8 de Junho, às 19h, estarei na Librairie Portugaise et Brésilienne, em Paris, para falar de "Lisbonne Mélodies", o meu último romance publicado em França.

No dia 9 de Junho, às 18h30, estarei à conversa com Ignasi Duarte na Fondation Calouste Gulbenkian de Paris em mais uma sessão do festival Conversations Fictives - convidados anteriores incluem Claudio Magris, Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, H. Abad Faciolince, Valter Hugo Mãe, etc.

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Resistiremos

por João Tordo, em 21.04.16

"Faremos os possíveis. Resistiremos à pequenez a que nos prendem, ao nome que somos, ao corpo ridículo que temos, resistiremos à Conservatória, ao estado larvar a que fomos condenados, porque somos muito mais compridos do que isso, muito mais antigos, muito mais vastos. Temos asas coloridas de borboletas dentro dos casulos pútridos e cinzentos a que chamamos realidade objectiva ou identidade ou individualidade. Resistiremos. Não nos renderemos."

Afonso Cruz, "Flores"

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no stand da Droemer Knaur, em Munique

por João Tordo, em 16.03.16

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O Ano Sabático na Alemanha

por João Tordo, em 08.03.16

...chama-se Stockmans Melodie. Edição da Droemer Knaur.

 

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Medo de Camarote

por João Tordo, em 07.03.16

       Quando eu tinha cinco ou seis anos, o meu avô levou-me ao camarote pela primeira vez. Não recordo quase nada desse dia, mas lembro-me vivamente do medo quando lá cheguei, após a viagem no carro cor de cobre que tinha guelras dos lados, como os tubarões. No camarote eu tinha a sensação da vertigem – de que, se me debruçasse, acabaria por deixar-me levar pelos braços levantados dos adeptos da Luz e escorregar anéis abaixo, de que só pararia no relvado. Deviam marcar-se muitos golos naquele estádio, porque a minha memória é de que as pessoas estavam constantemente a gritar de júbilo ou de euforia, os braços no ar, e eu, que era uma criança sem grande capacidade de absorção do ruído, tapava os ouvidos à espera de que alguma coisa explodisse dentro ou fora da minha cabeça. O meu pai, que por vezes também aparecia naquele camarote, sorria desajeitadamente ao reparar que o seu único filho era pouco generoso com o futebol e ainda menos com as multidões; e do resto pouco sei, era como se o ruído avassalador dos adeptos encobrisse tudo, um rumor que se levantava como uma vaga num sonho no instante de sucumbir.

 

Na época 1980/81 o plantel do Benfica era este:

 

Nené, Shéu, Carlos Manuel, Manuel Bento, João Alves, Pietra, Chalana, António Bastos Lopes, Veloso, Humberto Coelho, Laranjeira, César, Frederico, Vital, Reinaldo, José Luís, Jorge Gomes, Alhinho, Botelho, Alberto Bastos Lopes, Toni, Joel.

 

        Mais tarde nesse ano, no jornal, apareceria uma fotografia de Nené com a camisola do Futebol Clube do Porto, erguendo a Taça de Portugal conquistada no Jamor. Perguntei à minha avó se o Nené tinha ido jogar para o Porto, e ela deu-me uma palmada na nuca e aconselhou-me a deixar de ser parvo e perguntar ao meu avô. Nesse tempo era normal os jogadores vestirem as camisolas dos outros clubes numa manifestação de desportivismo, mesmo ao erguerem a taça recém-conquistada. O meu avô José tinha os recortes d’A Bola e do Record espalhados pela casa, por vezes guardava-os nas gavetas junto das pérolas falsas da minha avó e dos relógios digitais embrulhados em papel celofane. Nessas gavetas, uma vez, encontrei uma arma – uma pistola de coldre pesado que a minha avó me convenceu que era de fulminantes. Mas não era de fulminantes, era uma pistola a sério, e eu brinquei com ela durante um dia e, depois, misteriosamente, o objecto desapareceu. Aos domingos à noite jogávamos ao Totobola: o meu avô sentava-se à mesa da sala (uma mesa cujo tampo, voltado ao contrário, era uma superfície de jogo em feltro verde – não admira que o meu avô tivesse, nos seus últimos dias, jogado tudo o que tinha, mandando às urtigas uma pequena fortuna que ficou para sempre queimada na consciência da minha avó) e eu sentava-me ao lado dele, tudo cheirava a vinho, a cigarros e a feltro, eu gostava de mexer nos braços do meu avô, cobertos de pêlos brancos, e ele perguntava-me:

            Leixões – Oriental?

            Dois, respondia eu.

            Sporting – Portimonense?

            X, era o meu palpite.

            Era assim que preenchíamos o boletim. Os dias passavam, e eu comecei a ansiar pelo fim-de-semana, quando o Benfica invadia as nossas vidas. Não era apenas os jornais nem a ansiedade do meu avô, eram os pratos e os copos. Os pratos, com o tempo, lascaram e quebraram-se, mas ainda guardo um copo do Campeão Nacional e Campeão da Europa de 1960/61, os copos desse tempo são resistentes, talvez a areia do fundo dos lagos fosse de melhor qualidade (o facto é que o copo permanece aqui, na estante, à esquerda do lugar onde escrevo, este copo que nunca utilizei nem nunca irei utilizar, a única coisa que me resta do meu avô José). O Benfica começava na sexta-feira à noite com a leitura dos jornais e prolongava-se até à madrugada de segunda: amiúde despertei na calada da noite, suado, debaixo dos cobertores acolchoados, e vislumbrei pela fresta da porta a luz intermitente do abajur da sala. Uma vez levantei-me e, pé ante pé, deslizei o corpo magrinho pela abertura e vi o meu avô a dormir no sofá, o maço de SG Gigante ao lado da mão grossa e do dedo com cachucho e, numa mesinha, uma garrafa de Vat 69 e um copo vazio, eu estranhei aquilo porque, lá fora, atrás das cortinas de cetim manchadas pelo fumo do cigarro, havia um dia a nascer, ouviam-se os pássaros que gemiam dos beirais e, pouco depois, os passos das senhoras do terceiro andar, irmãs gémeas que nunca se separavam e que trabalhavam cedinho na Junta de Freguesia. Outra vez na cama, lembro-me de adormecer a pensar que, um dia, eu já não teria oito anos e seria um homem como o meu avô, e poderia ver televisão até tarde e dormir na sala.

      Nas semanas em que o Benfica ganhava, que eram quase todas, o meu avô levava para o trabalho um lenço vermelho no bolso das calças, dobrado em quatro. Tinha cinco ou seis lenços destes, que a minha avó lavava consistentemente aos sábados (raios partam o Benfica!, dizia ela). Se o Benfica perdia, o que quase nunca acontecia, levava um lenço branco e uma disposição muito menos agradável (raios partam o Benfica!, dizia a minha avó) – e se a equipa empatava, então, não levava lenço nenhum, o mais provável é que, nesses dias, mudasse de relógio ou vestisse, por cima da camisa branca, um daqueles casacos de malha castanhos ou verde-escuros com que o víamos em casa, era uma espécie de declaração de indiferença ou de apatia, como se a semana não existisse ou fosse feita de matéria moldável e ainda indecisa. Durante o Europeu de 1984, num dia em que Portugal jogava com a Espanha, o meu avô chegou a casa e disse que faltavam jogadores do Benfica no onze, que o Fernando Cabrita favorecia os jogadores do Porto, e foi deitar-se antes de o jogo terminar. Eu fiquei acordado nessa noite e vi o primeiro filme do Rambo na sessão da meia-noite, era a primeira vez que a RTP passava um filme daqueles, e depois deitei-me a sonhar com facas de gume afiadíssimo e carros da polícia destruídos, mas o meu medo – o meu grande e terrível medo – era do camarote do Estádio da Luz, do barulho das vozes ensanguentadas e da rouquidão dos homens barbudos, do bulício descontrolado da multidão prestes a ebulir.

        A seguir, o meu avô morreu. Eu e a minha irmã só soubemos da morte muito depois da morte: nesse Verão fomos passar férias longe de casa e, quando regressámos, o avô estava ausente. Durante alguns dias não perguntámos nada, ou talvez tivéssemos perguntado, ao que a minha avó respondia que o avó José andava a trabalhar a más horas. Um dia, na cozinha, eu tornei a perguntar, e ela respondeu:

            Então, o avô já morreu.

           Como se fosse um facto que as pessoas tinham lido nas notícias e visto na televisão, um facto que toda a gente conhecia menos dois miúdos de nove anos que tinham ido de férias. Nessa ocasião chorámos, e eu lembrei-me do carro do avô José, que continuava parado junto do passeio do outro lado da rua, e onde permaneceria durante uns dois ou três anos, os pneus vazios, o interior desabitado com o desamparo das casas abandonadas, antes de desaparecer misteriosamente e para sempre (nunca tornei a ver um carro parecido com um tubarão). E lembrei-me dos pratos e dos copos do Benfica, com os quais nunca tornaríamos a comer, e ainda consigo ver, com o mesmo silêncio ensurdecedor dos domingos, a minha avó a sair de casa com um ramo de flores para ir pôr na campa do meu avô, ainda que ele tivesse jogado a fortuna, mesmo que ele houvesse professado o Benfica, o tabaco e o vinho os amores da sua vida, não obstante ele, como tantos homens daquela geração, ter desistido, pois desistir era aquilo – era olvidar os afectos e alhear-se voluntariamente de si mesmo.

 

           Talvez porque o meu avô morrera, e ele fora o elo de ligação entre mim e o futebol – ou, melhor dizendo, a matéria afectiva que suavizara o clamor das multidões –, durante muitos anos não reparei que o futebol existia. Depois, quando atingi a maioridade, e o Benfica venceu o campeonato, acendeu-se alguma coisa há muito dormente em mim. Ou talvez tenha sido o efeito de um jogo do Benfica com o Parma, na meia-final da Taça das Taças, em que Rui Costa (então um miúdo) jogou como se o futebol fosse uma espécie de dança exótica. A equipa titular desse jogo:

 

Neno, Abel Xavier, Mozer, Hélder, Veloso, Kulkov, Vítor Paneira, João Pinto, Yuran, Rui Costa, Isaías

 

        E a partir desse dia juntei à minha identidade fragmentada o benfiquismo. Não sabia, nessa altura, que um dia escreveria estas páginas e que, através delas, ressuscitaria a figura perdida do meu avô (talvez parte importante da vida seja isto: um processo doloroso e infindável de ressuscitação até nos sentirmos confortáveis e apaziguados com o fantasma que dorme aos pés da nossa cama). Fiz-me sócio do clube e, embora não tivesse camarote, comecei a frequentar o terceiro anel naqueles que foram os anos mais solitários e sombrios da história do clube. A vantagem de ter atravessado esses anos – e a de todos aqueles que os atravessaram – é que, tendo suportado aquele deserto, qualquer oásis nos parece maravilhoso, mesmo se for um palmo de areia com uma palmeirinha de plástico. Em 1994, contudo, qualquer ideia de oásis era ainda uma miragem: o Benfica tinha pela frente uma enorme travessia sem recompensas, uma penosa dose de dor imediata. Do medo de camarote transitei para a melancolia do benfiquista, um estado que muitos conseguem identificar e que pode prolongar-se indefinidamente – é o que acontece quando um clube é demasiado grande, quando o peso do passado torna tudo mais urgente. Na verdade, um clube como o Benfica nunca perde: ele está sempre em vias de ganhar, continuamente no processo de vitória anunciada, e as derrotas, ou as fases menos boas, os resultados menos conseguidos, os anos para esquecer, são uma demora escusada, uma espera que gera enorme sofrimento porque a consciência dos benfiquistas funciona como um único balão de ar quente que continuamente se esvazia e torna a encher, e assim podemos passar uma vida inteira, neste processo de vir a conseguir, porque mesmo na vitória somos insatisfeitos, afinal o que é ganhar senão a possibilidade de vir a perder o que ganhámos? Num sentido muito literal, a vida de um clube de futebol é uma mimese romanceada da nossa própria vida, a roda do samsara na qual tudo se repete e repete e repete – só mudam as personagens.

        Nesses primeiros tempos de sócio levei o meu irmão mais novo ao futebol algumas vezes. Assistimos a jogos caseiros debaixo do sol tímido da Primavera e, pela televisão, fomos acompanhando os desaires europeus desses anos mais difíceis. O meu irmão, ao contrário de mim, nunca teve medo de ir ao estádio – era um miúdo rijo, de olhos tortos, que aprendeu na infância o amargo sabor da imperfeição, e, embora eu lhe prometesse (como se fosse a minha responsabilidade) que o Benfica haveria de regressar a um tempo que nem eu nem ele lembrávamos, nunca o Pedro se mostrou desanimado ou por um momento se lembrou de dizer, como os miúdos fazem hoje, que afinal não era do Benfica. A fé demonstra-se com maior virtude nos tempos mais árduos; ou, por outras palavras: Deus gosta mais de nós quando estamos decrépitos.

 

           Sob o efeito de uma dolorosa tortura, é possível que eu abdicasse de muitas coisas antes de abdicar do clube de futebol. O Benfica está profundamente enraizado na minha infância; num certo sentido nunca foi uma escolha, da mesma maneira que não escolhemos os nossos pais nem o nosso rosto – trair o meu clube seria o mesmo que esquecer que o meu avô existiu, com os seus casacos de malha e as suas dores, com o seu bigode grisalho e os copos de Campeão da Europa. Como é possível, no entanto, que esse medo do camarote – esse ruído ancestral que ainda hoje me paralisa sempre que atravesso uma praça movimentada ou escuto a sirene crescente de uma ambulância – seja a primeira recordação que tenho de alguma coisa da qual seria organicamente incapaz de abdicar? Talvez o medo seja aquilo que com maior força nos mantém reféns de certas crenças.

 

        Durante muitos anos não me lembrei do meu avô José. A vida levou-me para outras paragens, para longe da casa dos meus avós e dos afectos da infância. A morte do meu avô, anunciada naquela cozinha mal iluminada pela luz eléctrica que, no tecto, zunia em constante surdina, fechou-me durante muito tempo aos sentimentos; não me permitiu viver os lutos nem ter a capacidade de encerrar certos processos. O Benfica também ficou em aberto: os domingos tornaram-se lugar de prolongadas e desnecessárias angústias; era importante o Benfica vencer, muito importante, drasticamente importante e, depois, quando a adolescência deu lugar à idade adulta e às outras coisas (também drasticamente importantes) que constituem a vida, esqueci-me do clube (quase ninguém pensa em desporto quando está nos braços de uma mulher que ama, ou num avião a caminho de um lugar desconhecido). Esqueci-me do meu avô e desse camarote de sonhos aziagos. Mas ganhei outras coisas, entre elas a convicção de que, não obstante tudo o que viesse a acontecer, o Benfica permaneceria, de forma intermitente mas constante, na minha vida; e de que muito poucas coisas permaneciam dessa maneira, ou somente as que resistem a quase tudo.

            De que, por mais que eu me tentasse evadir, o meu avô continuava sentado no sofá a dormir de boca aberta, o ar quente de Agosto roçando levemente o seu bigode e o cigarro meio apagado na borda do cinzeiro; de que, ali, no centro nevrálgico do desconsolo, estava a razão de todo o apego da minha infância e do enorme vazio que chegou mais tarde.

 

            Quando eu levar o meu sobrinho ao futebol, poderei contar-lhe do antigo Estádio da Luz e da trabalheira que era chegar ao camarote. Poderei contar-lhe que o seu bisavô, o excelente senhor José, fumador de SG Gigante e bebedor de vinho, whisky e outras coisas distintas – nunca entendi muito bem o que era o Vat 69 – arrumava o carro no Alto dos Moinhos, o carro-banheira com guelras de tubarão, e que depois caminhávamos por um enorme descampado ao fundo do qual, como numa paisagem lunar, avistávamos o poderoso colosso de betão. Poderei, também, dizer-lhe a verdade: que não me lembro de nada disto, que a memória dos estofos de couro do carro, ou do Old Spice no pescoço peludo do avô José, ou a recordação dos seus olhos de pálpebras descaídas e hálito a carvão, é uma memória inventada ou tão profunda em mim que, por vezes, julgo que todos os sons e cheiros do mundo nasceram daí. Poderei, num dia de calor, levar o Matias ao camarote – não obstante, por influência paterna, o meu sobrinho torcer pelo Sporting. Não faz mal. Talvez ele queira saber alguma coisa do bisavô que nunca conheceu e, para tal, é-lhe mais útil sentar-se ali comigo e, juntos, celebrarmos o facto de, antes de nos conhecermos, já eu ter pensado em, um dia, levá-lo a ver um jogo do Benfica.

 

            O último onze do Benfica foi este:

 

            Luisão, Samaris, Jiménez, Gaitán, Júlio César, Jonas, Eliseu, Gonçalo Guedes, Sílvio, Talisca, Jardel

 

            Olho para o lado. Observo a multidão que, na outra ponta do estádio, se prepara para receber a equipa. O ar é invadido de papelinhos e fuligem, é como se tudo brilhasse ou fosse feito de purpurina. Depois, o som ergue-se da terra e engole-nos. Ardem-me os olhos como me ardiam na infância; há uma retração involuntária da glote, sinto que as palmas das mãos começam a suar e esfrego-as nas calças de ganga. Depois olho para o meu sobrinho, que se aproximou da balaustrada de madeira onde o camarote de 1980/81 termina e o futuro começa.

            Ele sorri, não há uma centelha de medo nos seus olhos, nenhum temor, só a perplexidade do momento: diz-me alguma coisa mas o barulho é tanto que não o consigo ouvir, só vejo a boca dele a mover-se.

            Não tem importância, penso, e também sorrio, no momento em que a equipa sobe ao relvado e o medo se vai embora.

 

(conto publicado no volume "Mística em Prosa") 

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CRÍTICA

João Tordo, um sólido trabalho de linguagem

Em O Paraíso Segundo Lars D. João Tordo confirma um sólido trabalho de linguagem.

Livros O Paraíso Segundo Lars D.

João Tordo volta a tentar aceder ao lugar onde a criação acontece. E se a literatura for a única verdade? MIGUEL MANSO

“E no silêncio, o que acontece?” A pergunta da mulher do escritor Lars D., logo no início do mais recente romance de João Tordo (Lisboa, 1975, pode funcionar como um pilar à volta do qual se estrutura o segundo volume da trilogia iniciada com O Luto de Elias Gro (Companhia das Letras, 2015) e que marca uma viragem no percurso literário de Tordo. O que se passa na cabeça de alguém para quem talvez fosse preferível desaparecer. “Desaparecer era quase um dever de cada homem, para que pudesse ver a sua vida do lado de fora…” Num lugar de onde não chegue um som, parece haver essa possibilidade.

 

João Tordo volta a tentar aceder ao lugar onde a criação acontece. Não para descobrir o processo mas para encenar uma possibilidade. E se Deus e o homem se revelarem nesse silêncio? E se nem um nem o outro existirem e tudo for ilusão? E se a literatura for a única verdade? Continuamos num território sem nome onde vive o homem só, perante o abismo de existir. Tordo fê-lo escritor e chamou-lhe Lars. Mas tem características de outros autores. Como Philip Roth, por exemplo, ele escreve de pé, para evitar as dores nas costas, e acredita, como Unamuno “que a verdade é precisamente o contrário que os nosso olhos no dizem”.

Na sua existência de asceta, Lars persegue o silêncio. Tem 66 anos, “dos trinta e três aos quarenta e oito anos escreveu dezoito romances”, e tinha um por publicar, escrito antes de desaparecer e que deixa à mulher. Nada mais que O Luto de Elias Gro. O leitor descobre desta forma estar perante o escritor fantasma Lars Drosler. O campo é o da metaliteratura. Lars personagem é, noutro livro, o Lars criador dessa personagem num romance em que se mitificou. Pôs-se a viver numa casa que o mar inundou levando na água todo o seu legado, facto que passa a alimentar a imaginação dos habitantes da ilha onde tudo se passa. Lars quer sempre desaparecer mas deixa sempre uma marca tornando a sua ausência uma eterna presença.

O Paraíso Segundo Lars D. revela, assim, a origem de O Luto de Elias Gronum jogo que João Tordo aprofunda, baralhando a ideia de autor e de Deus – e de homem comum - criadores de mundos onde o lugar da ilusão, do sonho ou do que chamamos real depende mais da experiência de cada uma das personagens que os habitam – a esses mundos - do que da determinação de um fazedor. Tudo se passa nesse silêncio interior, íntimo, a que Tordo quer aceder num livro curto, o mais curto dos seus livros, com poucas personagens, quase nenhuma acção, e onde fica mais exposto o protagonismo dado ao trabalho com a linguagem que já iniciara em O Luto de Elias Gro. Recupera-se um comentário a essa leitura: “O narrador chega à ilha para fazer o seu luto e no seu isolamento auto-imposto, no “inferno circular” da sua cabeça, apercebe-se de que uma ilha é um território apetecível a quem lida com a perda.” Neste romance seguinte, Tordo tem dois narradores -- a mulher de Lars e Lars – e mantém a ilha, desta vez como metáfora existencial, pegando no cliché “todo homem é uma ilha” para arquitectar o tema da solidão, do vazio, que já iniciara também em O Luto… e que aqui se evidencia.

“Os últimos livros do meu marido são um progressivo chamamento ao silêncio”. É assim que a mulher descreve Lars após o dia em que ele se torna uma ausência na sua vida. Uma manhã bem cedo, quando ele sai de casa para um passeio depois de uma insónia, encontra uma adolescente, Gloria, a dormir no interior do seu carro. Leva-a para casa, alimenta-a, deixa-a dormir no sofá, e a pedido da mulher, quando ela acorda, leva-a à estação de comboios. No percurso, faz um desvio e segue de carro com ela até uma praia a uns trezentos quilómetros de casa. Lars não volta. Em casa, a mulher vive essa ausência partilhando-a com um vizinho mais jovem, Xavier, estudante de Teologia, entusiasta e crítico da versão do Paraíso contada por Milton em O Paraíso Perdido, e com quem discute o paradoxo de Deus, e a busca do divino enquanto salvação. Ou a descoberta trágica, que terá sido a de Lars, segundo Xavier. “O homem descobre que a identidade humana é uma fraude. Devia ser uma grande alegria, certo? Mas o grande perigo da busca é esse mesmo. É descobrirmos que toda a identidade é uma anedota.”

Se em O Luto de Elias Gro há um livro a comandar a narrativa, aqui existem dois. O de Milton, e a sua concepção do homem à mercê de uma mulher ardilosa que o comanda para o abismo, e que no romance pode ser simbolizada por Gloria, e o diário de Etty Hillesum, onde a mulher do escritor se revê na sua vontade de ser cuidada em vez de cuidadora. Aquela que não se quis intrometer no silêncio do marido, que não reclamou nunca a sua presença, tem agora, na sua ausência de facto, a tarefa de tornar público o lugar onde o marido mais se revela, e ideia da literatura como lugar de verdade. Será?

Tordo não dá respostas. Alimenta cuidadosamente a ambiguidade, o paradoxo, como se fizessem parte de um silêncio cujo mistério não quer desvendar. Consegue muito bons momentos, arrisca na forma, alternando uma e outra voz, não se acomodando – e este livro é mais uma prova - a uma fórmula (anglossaxónica) que lhe garantiu grande visibilidade e o reconhecimento de ser um autor sólido. Tivesse sido ainda mais contido, não caindo por vezes na tentação de explicar uma ideia que depois o leva ao óbvio, ao escusado (ex: “dou-me conta da necessidade que um escritor tem de dizer a verdade, ou habilita-se a ser um falsário, ao qual não se atribui mais importância do que a uma criança mentirosa”; “Escrever era aquilo, era abrir a porta de um quarto escuro onde milhares de vozes estavam fechadas sem poderem sair e cujos ecos nos chegavam em sussurros, em carícias, em doces murmúrios, estamos aqui, não nos abandones; os braços gesticulando fora da porta, entrelaçados, sombras de braços e mãos em busca de um resgate”), e este Paraíso Segundo Lars D. seria um livro ainda melhor.

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O Paraíso no "Expresso" - 24 Dezembro

por João Tordo, em 26.12.15

"Este é um livro sem acção, o que decerto surpreenderá muitos dos leitores de Tordo (e mais surpreendidos ficarão por, ainda assim, se descobrirem igualmente agarrados da primeira à última página."

"João Tordo volta a oferecer-nos uma poderosa voz narrativa feminina."

"uma escrita mais vibrante, capaz de momentos de grande intensidade expressiva ou de inesperado lirismo."

José Mário Silva, EXPRESSO, ****
O PARAÍSO SEGUNDO LARS D.

 

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Cursos de Escrita de Romance I e II

por João Tordo, em 22.12.15

Já no princípio de Janeiro começam os meus novos cursos de Escrita de Romance, nível I e II, na Escrever Escrever, em Lisboa - informações e inscrições aqui.

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João Tordo

Prémios Literários

--Prémio Literário José Saramago 2009-- --Finalista do Prémio Fernando Namora em 2011 e 2012-- --Finalista do Prémio Portugal Telecom 2011-- --Finalista do Prémio Ficção da Sociedade Portuguesa de Autores-- --Prémio GQ - Man of the Year Literatura 2014--

Direitos de autor / Rights

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